medicina de família e comunidade
Clínica Geral, Saúde Mental e Práticas Integrativas.
TRAJETÓRIA NA MEDICINA
Otto Chaves formou-se em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, em Belo Horizonte, em 2010. Entre 2011 e 2013, realizou residência médica em Cirurgia Geral. Posteriormente, ingressou, por concurso público, na carreira de Médico-Legista do Estado de Minas Gerais e concluiu especialização em Medicina Legal e Perícias Médicas pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
A partir de 2014, passou a se dedicar também à Saúde Coletiva, atuando em Unidades Básicas de Saúde do SUS e exercendo a Medicina de Família e Comunidade. Concluiu especialização em Atenção Básica em Saúde da Família e participou do Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab). Realizou ainda capacitação em fitoterapia pela Associação Brasileira de Fitoterapia e atividades de formação continuada e atualização em canabinologia pela Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis.
Ao longo desse período, participou de atividades assistenciais junto a movimentos sociais e organizações não governamentais. Essas experiências estimularam uma reflexão crítica sobre sua própria formação e atuação, levando-o a questionar seu processo de produção do cuidado enquanto médico e a buscar outros territórios e possibilidades para o exercício da medicina.
Na Atenção Básica do SUS, seu trabalho esteve voltado à promoção da saúde integral, com atuação junto a populações rurais, comunidades ribeirinhas e povos originários, sempre vinculada à defesa do Sistema Único de Saúde. No campo da saúde indígena, atuou em territórios vinculados aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas do Alto Juruá, Alto Purus e Médio Purus, estabelecendo contato com diferentes etnias, comunidades e aldeias.
As experiências nos territórios amazônicos e o encontro com diferentes modos de compreender a saúde, o adoecimento, o cuidado e a relação com o mundo contribuíram para (des-re) construir sua prática clínica. Esse percurso ampliou seu compromisso com uma medicina integral, ética, crítica e afetiva, atenta à história de cada pessoa e às condições sociais, culturais e materiais em que sua vida acontece.
A partir de 2020, aprofundou seus estudos no campo da Saúde Mental. Integrou a primeira turma de formação do Instituto Phaneros, onde concluiu o curso Psicodélicos e Saúde Mental e recebeu capacitação para pesquisa em Psicoterapia Assistida por Psicodélicos. Nesse percurso, realizou treinamentos relacionados aos protocolos de pesquisa com MDMA para o transtorno de estresse pós-traumático e com psilocibina para o transtorno depressivo maior.
Possui pós-graduação em Psiquiatria e formações em Psicologia Clínica Histórico-Cultural e Esquizoanálise. Também possui pós-graduações em Psicoterapia Assistida por Cetamina pelo Instituto AION e em terapias psicodélicas aplicadas a saúde mental pelo CAMP.EDUC., abrangendo fundamentos farmacológicos, avaliação clínica, preparação, acompanhamento das sessões e integração das experiências. Atualmente, sua prática articula Clínica Geral, Saúde Mental, Medicina de Família e Comunidade, redução de danos e cuidado integral, sem estabelecer uma separação rígida entre corpo e mente. Cada pessoa é compreendida em sua totalidade, considerando sua história, seus vínculos, seu território e as condições concretas em que produz e organiza a própria vida.
Proposta Clínica
Toda prática clínica, ainda que não declarada explicitamente, responde a uma base filosófica e epistemológica: uma determinada compreensão do mundo, do ser humano, da saúde, do sofrimento e das possibilidades de transformação. Essas referências orientam aquilo que o profissional reconhece como doença, os elementos que considera relevantes em uma consulta, a maneira como interpreta os sintomas e os caminhos terapêuticos que propõe.
Otto Chaves tem como referencial teórico de sua atuação profissional o materialismo histórico-dialético, método científico de análise que busca compreender os fenômenos em sua objetividade, historicidade, movimento e contradições. Nessa perspectiva, história, sociedade, política e economia não constituem apenas o cenário em que a vida acontece, mas participam das determinações dos processos de saúde e adoecimento, em suas expressões físicas e psíquicas. Essa concepção demarca seu fazer clínico e orienta a maneira como compreende a patologia, a medicalização, o sujeito, as relações e os modos de vida.
A proposta é oferecer atendimentos em Clínica Geral e Saúde Mental sem estabelecer uma separação rígida entre corpo e mente. O biológico, o psíquico e o social são compreendidos como dimensões distintas, porém inseparáveis, de uma mesma totalidade. Por isso, em toda consulta, independentemente da queixa inicial, a pessoa é avaliada de maneira integral.
Recursos próprios da medicina — como anamnese, exame físico, exames laboratoriais e de imagem e medicamentos, quando indicados — podem ser articulados à investigação do sono, da alimentação, da atividade física, do trabalho, dos vínculos, da sexualidade, do lazer, do uso de tecnologias e da relação com álcool, tabaco e outras substâncias. Práticas integrativas também podem compor o plano de cuidado quando apresentarem segurança, coerência clínica e sentido para a pessoa acompanhada.
O sujeito é compreendido como uma síntese dinâmica entre o interno e o externo, o biológico e o sociocultural, o afetivo e o cognitivo. Não se trata de dimensões isoladas que posteriormente se somam, mas de aspectos que se constituem mutuamente. Aquilo que é vivido como íntimo e subjetivo carrega as marcas das relações e das condições concretas de existência; ao mesmo tempo, cada pessoa se apropria dessas experiências de maneira singular e produz novas respostas diante delas.
A integralidade, portanto, não consiste apenas em reunir informações sobre diferentes áreas da vida ou acrescentar orientações sobre hábitos a um diagnóstico médico. Significa investigar como sintomas, condições orgânicas, afetos, pensamentos, atividades, relações e modos de vida se organizam em uma totalidade concreta, atravessada por tensões e contradições. Essa totalidade não é fixa: encontra-se em permanente movimento e pode produzir novas sínteses e possibilidades de existência.
O desenvolvimento saudável também não é definido a partir de um modelo abstrato, normativo ou moralizante. Saúde não corresponde apenas à ausência de sintomas, à adaptação passiva às exigências sociais ou ao cumprimento de um conjunto idealizado de comportamentos. Refere-se à possibilidade de ampliar a autonomia, a consciência sobre as determinações da própria vida e a potência para agir sobre a realidade.
Isso não significa desconsiderar a importância da alimentação, do movimento corporal, do sono ou dos tratamentos médicos. Significa evitar que o cuidado seja reduzido à responsabilização individual, como se todas as pessoas dispusessem das mesmas condições materiais para modificar sua rotina. As intervenções precisam considerar não somente aquilo que seria desejável, mas também o que é necessário, significativo e concretamente possível em cada momento.
A relação clínica busca romper com o modelo estritamente vertical no qual o médico detém sozinho o conhecimento e o paciente ocupa uma posição passiva. Médico e paciente tornam-se aliados na investigação dos sintomas, da doença e dos elementos que participam de sua produção e manutenção. Essa parceria não elimina a responsabilidade técnica do profissional, mas reconhece que a pessoa possui um conhecimento insubstituível sobre sua história, seu corpo e sua própria experiência.
As possibilidades diagnósticas e terapêuticas são apresentadas e discutidas de maneira compreensível. As decisões são compartilhadas, considerando as evidências científicas, os riscos e benefícios das intervenções, os valores, os desejos e as condições concretas da pessoa. Até mesmo as fronteiras entre o normal e o patológico precisam ser examinadas em relação ao sofrimento, à funcionalidade e à singularidade, evitando transformar diferenças humanas ou respostas compreensíveis às circunstâncias da vida em doenças que necessariamente demandem medicação.
Nesse sentido, a crítica à medicalização não corresponde a uma recusa dos diagnósticos ou dos medicamentos. Ambos podem ser necessários e, em determinadas situações, fundamentais. A questão é compreender quando contribuem para ampliar a autonomia e a qualidade de vida e quando podem estar sendo utilizados apenas para silenciar sintomas, adaptar a pessoa a condições adoecedoras ou substituir outras formas necessárias de cuidado e transformação.
O plano terapêutico pode articular medicamentos, atividade física, alimentação, cuidados com o sono, vida social, lazer, reorganização da rotina, gestão do uso de telas e estratégias de redução de danos. Em vez de impor abstinência ou mudanças padronizadas, procura-se compreender a função que determinados hábitos ou substâncias desempenham na vida da pessoa e construir intervenções graduais, realistas e pactuadas.
No campo da Saúde Mental, essa perspectiva busca ultrapassar uma clínica restrita à descrição, classificação e supressão dos sintomas. Um sintoma possui uma dimensão biológica, mas também uma história, uma função e um sentido constituídos nas relações concretas da vida. Investigar sua gênese não significa procurar uma causa única ou uma “raiz” oculta, mas compreender o conjunto de relações, acontecimentos e contradições que tornou possível seu aparecimento e que pode contribuir para sua permanência ou transformação.
A clínica é concebida, assim, como espaço de investigação, elaboração e produção de novos sentidos. O cuidado pode favorecer processos de autorregulação, ampliação da consciência, reorganização dos afetos, recuperação da motivação e fortalecimento da volição — compreendida como a capacidade de orientar as próprias ações e sustentar escolhas no mundo concreto.
Falar em modulação da potência significa pensar o cuidado não apenas como redução de sintomas ou alívio do sofrimento, mas também como ampliação da capacidade de existir, relacionar-se, criar, decidir e agir. Essa transformação não acontece exclusivamente no interior do indivíduo: envolve seus vínculos, suas atividades, seu território e as possibilidades individuais e coletivas de modificar as condições que participam da produção de seu sofrimento.
A proposta é, portanto, construir uma clínica integral, ética, crítica e afetiva, na qual rigor científico, escuta qualificada e participação ativa da pessoa não sejam elementos opostos. Uma clínica capaz de reconhecer os limites da medicina sem renunciar às suas ferramentas e de compreender o sofrimento em sua singularidade sem separá-lo da realidade histórica e social na qual é produzido.



01.
No que tange à saúde mental, possui Pós-Graduação em Psiquiatria (FGMED), Psicologia Clínica Historico-Cultural (Lev Historico Cultural) e formação em Esquizoanálise (Escola Nômade de Filosofia). Integrou a primeira turma do Instituto Phaneros, onde concluiu o curso de Psicodélicos e Saúde Mental e recebeu formação em pesquisa com Psicoterapia Assistida por Psicodélicos. Ainda que durante os atendimentos utilize recursos da clínica psiquiátrica, possui críticas em relação a certas práticas da psiquiatria hegemônica.
A psiquiatria hegemônica, com seu modelo biomédico focado na medicalização, tende a desvalorizar os aspectos psicossociais no tratamento de pessoas com transtornos mentais e a promover um processo de individualização e biologização da doença, que pouco considera fatores econômicos, políticos e sociais. Esse tipo de abordagem atua como uma engrenagem fundamental na nossa máquina de reprodução social, caracterizada principalmente como uma racionalidade de controle social dos corpos e produção de subjetividades.
Esse modelo biomédico, apesar de defender uma teoria multicausal da saúde-doença e apresentar várias causas para os transtornos, destaca os fatores biológicos e limita os aspectos sociais a elementos isolados. Assim, a psiquiatria hegemônica, com o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), pretende trazer explicações acerca do sofrimento psíquico, mas se limita a descrever e listar sintomas para classificá-los em transtornos. As descrições da psiquiatria podem ser úteis para uma compreensão parcial da realidade — os diagnósticos que esse instrumento de análise nos oferece podem ter suas contribuições a nível de pesquisa, fluxos de encaminhamentos e políticas públicas —, mas são insuficientes e precisa-se ir além. A descrição deve estar subordinada à descoberta da origem e da essência do fenômeno, ou seja, buscar a explicação seguindo uma lógica dialética.
Em contraponto, temos a teoria da determinação social do processo saúde-doença, que possui como fundamento o materialismo histórico e dialético, que traz o social e cultural para a centralidade. Essa teoria visa olhar para a totalidade, para o sujeito de maneira integrada, não apenas para a descrição de sintomas.
Assim, como mencionado anteriormente, a proposta é uma abordagem terapêutica com uma clínica que nos forneça subsídios para investigar a raiz de questões psíquicas profundas, visando avançar em direção à saúde mental e bem-estar. Uma clínica concebida como espaço de transformação, autorregulação, modulação da potência, motivação/volição e desenvolvimento.
02.
Cannabis Medicinal
A cannabis medicinal vem ganhando espaço na prática clínica e na pesquisa científica, embora seu uso ainda seja cercado por desinformação, estigmas culturais e diferentes graus de resistência entre profissionais da saúde e a sociedade. Nas últimas décadas, o avanço das pesquisas permitiu compreender melhor seus possíveis benefícios, limitações, riscos e interações medicamentosas.
Atualmente, medicamentos e produtos derivados da cannabis são utilizados principalmente em situações específicas, sobretudo quando os tratamentos convencionais não proporcionam resposta adequada ou provocam efeitos adversos importantes. A indicação deve ser individualizada, baseada nas melhores evidências disponíveis e acompanhada por profissional habilitado.
No Brasil, a regulamentação dos produtos de cannabis começou a avançar de maneira mais significativa em 2019. Em 2026, a Anvisa atualizou esse marco por meio da RDC nº 1.015/2026, que substituiu a RDC nº 327/2019 e estabeleceu novas regras para fabricação, importação, controle de qualidade, prescrição e comercialização desses produtos. A importação para uso próprio, mediante prescrição e autorização da Anvisa, continua regulamentada pela RDC nº 660/2022.
Apesar desses avanços, o acesso ainda enfrenta obstáculos, como custos elevados, oferta limitada de algumas formulações e dificuldades relacionadas à produção nacional. Além dos produtos disponíveis em farmácias e daqueles importados diretamente pelos pacientes, algumas associações fornecem preparações mediante autorizações judiciais e seguindo critérios próprios de qualidade e acompanhamento.
A planta Cannabis sativa possui centenas de substâncias químicas, incluindo mais de uma centena de fitocanabinoides. Os mais conhecidos e estudados são o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), mas também existem outros compostos de interesse, como canabigerol (CBG), canabicromeno (CBC), canabinol (CBN) e canabidivarina (CBDV), além de terpenos e flavonoides.
Essas substâncias interagem de maneiras diferentes com o sistema endocanabinoide, uma rede de sinalização envolvida na manutenção do equilíbrio do organismo. Esse sistema inclui endocanabinoides produzidos pelo próprio corpo, enzimas responsáveis por sua síntese e degradação e receptores como CB1 e CB2. Os receptores CB1 estão especialmente presentes no cérebro e no sistema nervoso, enquanto os CB2 são encontrados principalmente em células do sistema imunológico e em tecidos periféricos.
O sistema endocanabinoide participa da modulação de diversas funções, como percepção da dor, sono, apetite, memória, resposta ao estresse, humor, inflamação e atividade imunológica. O CBD e o THC, entretanto, não atuam da mesma maneira: o THC apresenta ação psicoativa e age principalmente nos receptores CB1 e CB2, enquanto o CBD possui mecanismos mais complexos e indiretos, envolvendo também outros receptores e sistemas de neurotransmissão.
Os derivados da cannabis podem ser encontrados em diferentes apresentações, como soluções orais, cápsulas, sprays e formulações tópicas. A escolha do produto, da proporção entre CBD e THC e da via de administração depende da condição tratada, dos objetivos terapêuticos, da idade, das doenças associadas e dos medicamentos utilizados pelo paciente.
Algumas preparações contêm diferentes canabinoides e outros componentes da planta. A possível interação entre essas substâncias é conhecida como “efeito entourage” ou efeito conjunto. Embora essa hipótese tenha plausibilidade farmacológica, ainda não há evidências suficientes para afirmar que produtos de espectro completo sejam sempre mais eficazes ou provoquem menos efeitos adversos do que formulações contendo canabinoides isolados. A escolha deve ser feita individualmente, considerando a composição, a qualidade e a resposta clínica ao produto.
As evidências mais consistentes encontram-se no uso de CBD farmacêutico em algumas epilepsias de difícil controle, como as síndromes de Dravet e Lennox–Gastaut e a epilepsia associada ao complexo da esclerose tuberosa. Há também evidências, com diferentes graus de qualidade, para determinadas formas de dor crônica — especialmente neuropática —, espasticidade associada à esclerose múltipla e náuseas e vômitos relacionados à quimioterapia.
Outras aplicações, como sintomas associados ao transtorno do espectro autista, doenças neurodegenerativas, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e alterações do sono, permanecem em investigação. Alguns pacientes podem apresentar benefícios, mas os resultados ainda são variáveis e não permitem considerar a cannabis um tratamento de eficácia comprovada para todos esses quadros. Da mesma forma, não existem evidências suficientes para indicar seu uso rotineiro como antidepressivo.
A cannabis medicinal também pode provocar efeitos adversos. Sonolência, tontura, alterações gastrointestinais, redução da atenção, mudanças no apetite e interações com outros medicamentos estão entre os mais frequentes. Produtos contendo THC podem causar ansiedade, alterações da percepção, prejuízo da memória, aceleração dos batimentos cardíacos e comprometimento da capacidade de dirigir. Cuidados adicionais são necessários em crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças hepáticas ou cardiovasculares e indivíduos com histórico pessoal ou familiar de psicose.
O tratamento costuma seguir o princípio de “começar com uma dose baixa e aumentar lentamente”. A dose deve ser ajustada de acordo com a resposta clínica, a tolerabilidade e a ocorrência de efeitos adversos. Em algumas situações, também pode ser necessário acompanhar exames laboratoriais e revisar possíveis interações medicamentosas.
A cannabis medicinal não deve ser apresentada como solução universal nem como substituta automática dos tratamentos convencionais. Ela pode atuar como terapia complementar e, em casos selecionados, permitir a redução gradual de outros medicamentos. Qualquer mudança, entretanto, deve ocorrer com acompanhamento profissional, evitando interrupções abruptas ou substituições sem avaliação clínica.
Quando utilizada com indicação adequada, produtos de qualidade, objetivos terapêuticos definidos e acompanhamento contínuo, a cannabis medicinal pode representar uma alternativa valiosa para determinados pacientes. O tratamento deve sempre buscar um equilíbrio entre benefício, segurança, funcionalidade e qualidade de vida.
03.
Psicodélicos e Redução de Danos
O trabalho com psicodélicos e redução de danos tem como objetivo oferecer informações qualificadas sobre essas substâncias, seus diferentes contextos de uso e as experiências que podem produzir. A abordagem considera tanto seus potenciais terapêuticos quanto os riscos físicos, psíquicos e sociais envolvidos, com base na literatura científica disponível e sem estimular ou prescrever o uso de substâncias não autorizadas.
No campo da medicina psicodélica, Otto integrou a primeira turma da Formação para Pesquisa em Psicoterapia Assistida por Psicodélicos do Instituto Phaneros. Durante esse percurso, recebeu treinamento de pesquisadores ligados à MAPS para o protocolo com MDMA no tratamento do transtorno de estresse pós-traumático e de pesquisadores do Usona Institute para o protocolo com psilocibina no tratamento do transtorno depressivo maior.
Possui pós-graduação em Psicoterapia Assistida por Cetamina pelo Instituto AION e em Terapias Psicodélicas Aplicadas à Saúde Mental pelo CAMP.EDUC., abrangendo fundamentos farmacológicos, avaliação clínica, preparação, acompanhamento e integração das experiências, além de atividades práticas supervisionadas.
Sua atuação nesse campo articula Psiquiatria, Medicina de Família e Comunidade, redução de danos e Psicologia Histórico-Cultural. A experiência psicodélica não é compreendida como um fenômeno exclusivamente cerebral ou individual, mas como uma vivência constituída na relação entre corpo, história de vida, afetos, vínculos, cultura e condições sociais concretas.
Preparação e integração de experiências
A redução de danos reconhece que as pessoas entram em contato com psicodélicos em diferentes circunstâncias: pesquisas clínicas, contextos religiosos, práticas tradicionais de povos originários, retiros no exterior ou experiências realizadas de maneira autônoma. Diante dessa realidade, busca-se ampliar a segurança, a autonomia e a capacidade de tomar decisões informadas.
A preparação é um processo de avaliação e orientação destinado a pessoas que pretendem participar de experiências em contextos legalmente permitidos ou que já tenham decidido realizá-las de maneira independente. São abordados aspectos como saúde física e mental, histórico pessoal e familiar, medicamentos em uso, contraindicações, expectativas, medos, intenções, rede de apoio e características do ambiente. Também podem ser trabalhadas estratégias de autorregulação, como respiração, ancoragem corporal, reconhecimento das emoções e capacidade de solicitar ajuda.
A integração acontece após a experiência e procura ajudar a pessoa a recordar, compreender e elaborar o que viveu, relacionando imagens, afetos, sensações, memórias e percepções com sua história e com as condições concretas de sua vida. Não se considera automaticamente o conteúdo da experiência como uma verdade literal ou como uma orientação que deva ser imediatamente transformada em decisão.
Preparação e integração não envolvem o fornecimento, a indicação ou a administração de substâncias ilícitas. Também não tornam legal o uso de uma substância proibida e não substituem acompanhamento médico, psicológico ou psiquiátrico quando necessário.
Situação regulatória no Brasil
A psicoterapia assistida por psilocibina, MDMA, LSD ou DMT ainda não possui autorização para uso clínico regular no Brasil. A administração terapêutica dessas substâncias ocorre essencialmente em pesquisas formalmente autorizadas. A ayahuasca possui uma situação particular: seu uso religioso é reconhecido pela Resolução Conad nº 1/2010, mas isso não corresponde à sua aprovação como medicamento.
A cetamina e a escetamina são medicamentos registrados pela Anvisa. A escetamina intranasal possui indicação psiquiátrica específica, principalmente em casos de transtorno depressivo de difícil tratamento e ideação suicida, enquanto o emprego de apresentações injetáveis no tratamento de transtornos mentais é realizado de maneira off-label. O Parecer CFM nº 20/2024 admite esse uso em situações individualizadas, sob responsabilidade médica, com fundamentação científica, consentimento esclarecido, monitorização e estrutura assistencial adequada.
A ibogaína não consta das listas brasileiras de substâncias proscritas ou sujeitas a controle especial. Entretanto, ainda não existe medicamento à base de ibogaína registrado nem tratamento regulamentado pela Anvisa, o que impede sua comercialização regular com finalidade terapêutica. No Brasil, alguns tratamentos têm sido realizados mediante autorizações judiciais específicas, que permitem sua importação e utilização em determinadas condições, mas não equivalem a uma aprovação sanitária geral. Como a substância pode provocar alterações cardíacas graves, interações medicamentosas, convulsões e morte súbita, seu uso exige avaliação clínica rigorosa, monitorização e estrutura adequada para atendimento de emergências.
Pesquisas brasileiras
O Brasil ocupa uma posição relevante na pesquisa com psicodélicos, especialmente pela trajetória científica e cultural relacionada à ayahuasca. Pesquisadores da UFRN, USP, Unicamp e de outras instituições vêm investigando seus efeitos na depressão, na neuroplasticidade, nos processos inflamatórios e nas relações entre experiência, contexto e resposta terapêutica.
Entre os trabalhos de maior repercussão estão os ensaios brasileiros com ayahuasca em pessoas com depressão resistente. Também avançam pesquisas sobre psilocibina, MDMA, cetamina, escetamina e ibogaína, incluindo um estudo-piloto realizado pela USP com pessoas com transtorno por uso de álcool.
Esses resultados são promissores, mas ainda precisam ser ampliados e replicados. O avanço das pesquisas não significa que todas essas intervenções estejam liberadas para a prática clínica, mas contribui para avaliar com maior rigor sua eficácia, seus riscos e as condições necessárias para um eventual uso terapêutico.
Uma perspectiva crítica e responsável
Os psicodélicos podem aumentar temporariamente a flexibilidade psicológica, a sensibilidade ao contexto e a possibilidade de reorganização de padrões emocionais e cognitivos. Entretanto, conceitos como neuroplasticidade não significam que toda experiência produza benefícios. Seus efeitos dependem da pessoa, da substância, da dose, do ambiente, das relações estabelecidas e da qualidade do acompanhamento.
A experiência também não deve ser reduzida a uma ferramenta de adaptação individual ao sofrimento. Compreender e transformar esse sofrimento envolve reconhecer suas dimensões subjetivas, corporais, relacionais e sociais. Novos sentidos podem favorecer mudanças pessoais importantes, mas não eliminam automaticamente as contradições materiais que participam de sua produção.
O compromisso ético é oferecer cuidado baseado em evidências, redução de danos, respeito à autonomia e avaliação crítica, evitando tanto a criminalização e o estigma quanto a idealização dos psicodélicos como soluções universais.
O atendimento parte do princípio de que corpo e mente não são dimensões separadas. Em todas as consultas, independentemente da queixa principal, a pessoa é avaliada em sua integralidade, considerando os aspectos físicos, emocionais, familiares, sociais e culturais que participam do processo de saúde e adoecimento.
Assim, uma queixa inicialmente percebida como física pode estar relacionada ao sono, ao trabalho, aos vínculos, ao uso de medicamentos ou substâncias, às condições de vida e ao sofrimento emocional. Da mesma forma, sintomas como ansiedade, tristeza, alterações do humor ou dificuldade de concentração também podem ter relação com condições clínicas, hormonais, metabólicas, neurológicas ou com efeitos de medicamentos. O objetivo não é reduzir o sofrimento a uma única causa, mas compreender como seus diferentes componentes se relacionam.
A consulta começa com uma escuta detalhada dos sintomas, da história clínica e de vida, dos hábitos, das relações, do trabalho, dos acontecimentos recentes e da maneira como aquela condição interfere no cotidiano e na funcionalidade. Nas consultas presenciais, essa avaliação é complementada pelo exame físico. Quando necessário, podem ser utilizados exames laboratoriais e de imagem ou instrumentos clínicos específicos, desde que contribuam para esclarecer o quadro ou orientar a conduta.
A partir dessa avaliação, as possibilidades diagnósticas e terapêuticas são discutidas com o paciente. O plano de cuidado pode envolver medicamentos, mudanças de hábitos, intervenções sobre sono e rotina, estratégias de redução de danos, acompanhamento psicoterapêutico ou articulação com outros profissionais. As decisões são construídas em conjunto, respeitando os objetivos, as necessidades, a autonomia e as possibilidades concretas de cada pessoa.
O atendimento também contempla prevenção e promoção da saúde, incluindo vacinação, rastreamentos adequados à idade e ao perfil de risco, identificação precoce de doenças e acompanhamento de condições crônicas. Busca-se evitar tanto a investigação insuficiente quanto a realização desnecessária de exames, diagnósticos e tratamentos.
Todo o atendimento é registrado em prontuário, com preservação do sigilo, permitindo acompanhar a evolução clínica, os exames realizados e as decisões compartilhadas ao longo do tempo.
O acompanhamento ambulatorial não substitui serviços de urgência. Situações como dor intensa ou súbita, dificuldade para respirar, alteração aguda da consciência, risco imediato de suicídio, agitação intensa, sintomas psicóticos graves ou risco de violência devem ser avaliadas prontamente em um serviço de emergência.
A teleconsulta é uma consulta médica realizada por videochamada, regulamentada pela Resolução CFM nº 2.314/2022. Ela permite realizar avaliações, orientar tratamentos, analisar exames e acompanhar diferentes condições de saúde sem a necessidade de deslocamento.
O atendimento começa com uma avaliação detalhada dos sintomas, da história de vida, dos antecedentes médicos, dos medicamentos utilizados e dos aspectos emocionais, familiares, sociais e culturais relacionados à saúde. Quando necessário, também podem ser utilizados questionários ou escalas clínicas como recursos complementares.
Ao final, são discutidas as possibilidades diagnósticas e elaborado um plano terapêutico individualizado. Podem ser emitidos pedidos de exames, receitas, atestados ou encaminhamentos, desde que exista indicação clínica e que o documento seja permitido nessa modalidade de atendimento.
A teleconsulta possui algumas limitações. Quando o exame físico for indispensável, houver necessidade de um procedimento ou a avaliação remota não for suficiente para garantir uma conduta segura, será recomendada uma consulta presencial ou o encaminhamento ao serviço mais adequado.
Como são emitidas e enviadas as receitas médicas?
Após a consulta, quando houver indicação, as receitas e os pedidos de exames são emitidos de acordo com as exigências aplicáveis a cada medicamento.
Podem ser encaminhadas digitalmente, com assinatura eletrônica válida:
* Receitas simples: utilizadas, por exemplo, para anti-hipertensivos, medicamentos para diabetes, analgésicos, anti-inflamatórios e anticoncepcionais;
* Receitas de Controle Especial: utilizadas para diversos antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores do humor e anticonvulsivantes, como sertralina, fluoxetina, bupropiona, quetiapina, pregabalina, gabapentina etc;
* Receitas de antimicrobianos: utilizadas para antibióticos como amoxicilina, azitromicina, cefalexina etc.
Esses documentos são enviados diretamente ao paciente em formato digital e podem ser apresentados na farmácia pelo celular, desde que atendam aos requisitos de assinatura e validação.
Alguns medicamentos sujeitos a controle especial, entretanto, ainda exigem formulários físicos específicos, como:
* Notificação de Receita A, de cor amarela: utilizada para medicamentos como morfina, metadona, oxicodona, metilfenidato, lisdexanfetamina etc;
* Notificação de Receita B, de cor azul: utilizada para medicamentos como clonazepam, alprazolam, diazepam, lorazepam, zolpidem etc.
Nesses casos, o documento original precisa ser retirado presencialmente ou enviado pelos Correios para o endereço informado pelo paciente. Como o envio postal pode levar alguns dias, essa necessidade e o prazo aproximado de entrega serão informados previamente.
A emissão ou renovação de qualquer receita depende de avaliação médica. Medicamentos controlados seguem regras específicas quanto ao tipo de formulário, prazo de validade e quantidade que pode ser prescrita. Por esse motivo, nem sempre é possível renovar uma receita sem uma nova consulta.
O acompanhamento após a consulta permite avaliar a resposta ao tratamento e possíveis efeitos adversos. Ajustes simples previamente combinados podem ser realizados durante esse período. Mudanças mais significativas, aparecimento de novos sintomas ou necessidade de reavaliação diagnóstica podem exigir uma nova consulta.
Sim. Existem condições especiais para pessoas que acompanhei anteriormente no SUS e para pacientes inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais, conforme disponibilidade.
O objetivo é facilitar a continuidade do cuidado e ampliar o acesso ao atendimento. As condições podem ser consultadas diretamente no momento do agendamento.
Cannabis medicinal é o uso terapêutico de medicamentos ou produtos derivados da planta Cannabis sativa. A planta contém mais de uma centena de fitocanabinoides, entre os quais se destacam o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), além de substâncias como CBG, CBC, CBN, terpenos e flavonoides.
Esses compostos interagem de maneiras diferentes com o sistema endocanabinoide e com outros sistemas de sinalização do organismo, participando da modulação da dor, do sono, do apetite, da memória, do humor e das respostas inflamatórias e imunológicas.
As evidências mais consistentes estão relacionadas ao uso de CBD farmacêutico em algumas epilepsias de difícil controle, como as síndromes de Dravet e Lennox–Gastaut e a epilepsia associada ao complexo da esclerose tuberosa. Há também evidências, com diferentes graus de qualidade, para determinadas formas de dor crônica, especialmente neuropática, espasticidade associada à esclerose múltipla e náuseas e vômitos provocados pela quimioterapia.
Outras aplicações — como ansiedade, insônia, transtorno do espectro autista, doenças neurodegenerativas e alguns sintomas relacionados à saúde mental — ainda estão sendo investigadas. Alguns pacientes podem apresentar benefícios, mas a resposta é variável, e a cannabis não deve ser apresentada como tratamento comprovado ou universal para essas condições.
Os produtos podem conter CBD isolado ou diferentes combinações de canabinoides. Formulações de espectro completo também apresentam outros componentes da planta. A possível interação entre essas substâncias é conhecida como “efeito entourage”, mas ainda não está demonstrado que produtos de espectro completo sejam sempre mais eficazes ou causem menos efeitos adversos do que formulações isoladas.
A escolha do produto e da proporção entre CBD e THC depende da condição clínica, da idade, das doenças associadas, dos medicamentos utilizados e dos objetivos do tratamento. Em geral, inicia-se com doses baixas, seguidas de aumento gradual conforme a resposta e a tolerabilidade.
Cannabis medicinal também pode provocar efeitos adversos e interações medicamentosas. Sonolência, tontura, alterações gastrointestinais e mudanças no apetite estão entre os efeitos possíveis. Produtos com THC podem causar ansiedade, alterações da percepção e prejuízo da atenção, da memória e da capacidade de dirigir.
O tratamento pode ser utilizado de forma complementar e, em situações selecionadas, permitir a redução gradual de outros medicamentos. Essa substituição, entretanto, nunca deve ser automática e precisa ocorrer com acompanhamento médico.
Não realizo sessões particulares com administração de psicodélicos clássicos, como psilocibina, MDMA, LSD ou DMT. A psicoterapia assistida por essas substâncias ainda não possui autorização para uso clínico regular no Brasil e, atualmente, sua administração terapêutica ocorre principalmente em pesquisas autorizadas pelos órgãos competentes.
Ofereço avaliação, orientação e acompanhamento em redução de danos para pessoas que pretendem participar de experiências em contextos legalmente permitidos ou que já tenham decidido realizá-las de maneira autônoma. Esse trabalho não envolve fornecer, indicar ou prescrever substâncias ilícitas.
Também realizo preparação e integração de experiências. Na preparação, são abordados histórico de saúde, medicamentos, contraindicações, expectativas, medos, contexto da experiência e estratégias de autorregulação. A integração ocorre posteriormente e busca ajudar a pessoa a elaborar o que viveu, relacionando imagens, emoções, memórias e percepções com sua história e com sua vida cotidiana.
A ayahuasca possui uma situação jurídica particular: seu uso religioso é reconhecido no Brasil dentro das normas do Conad, mas isso não corresponde à sua aprovação como medicamento ou à autorização para utilização clínica.
A cetamina também precisa ser diferenciada dos psicodélicos clássicos. Trata-se de um anestésico dissociativo registrado pela Anvisa que, em determinadas apresentações, doses ou indicações psiquiátricas, pode ser empregado de maneira off-label. O Parecer CFM nº 20/2024 admite o uso criterioso da escetamina injetável no tratamento de transtornos mentais, especialmente quando as terapias estabelecidas falharam ou produziram resposta insuficiente.
Quando clinicamente indicado, o tratamento com cetamina deve incluir avaliação médica, consentimento esclarecido, monitorização e estrutura compatível com possíveis intercorrências. Pode ser associado a preparação e integração, mas não deve ser apresentado como tratamento isento de riscos nem como garantia de cura.
A preparação é um processo anterior à experiência, voltado à avaliação de riscos, ao esclarecimento de expectativas e à construção de recursos para lidar com situações emocionalmente intensas. São avaliados aspectos clínicos, psicológicos, familiares e contextuais, incluindo medicamentos em uso, histórico de transtornos mentais, condições cardiovasculares e características do ambiente onde a experiência ocorrerá.
A integração é realizada após a experiência. Seu objetivo é ajudar a pessoa a elaborar o que viveu e avaliar como essa vivência se relaciona com sua história, seus vínculos e suas condições atuais de vida. Não se parte do princípio de que toda imagem, pensamento ou sensação experimentada seja literalmente verdadeira ou deva ser transformada imediatamente em uma decisão.
Preparação e integração são práticas de cuidado e redução de danos. Elas não incluem o fornecimento da substância, não legitimam contextos ilegais e não substituem tratamento médico ou psicoterapêutico quando necessário.